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Passamos a apresentar...
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O Bisavô, minissérie de Sidney Carbone.
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Manhã ensolarada de um sábado de verão.
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Enquanto põe a mesa para o café da manhã Chica, a empregada da família Moraes Cantarola uma canção alegre Ah, que manhã mais radiosa Tá um sol lindo lá fora Adoro o verão Bom dia, Chica Bom dia, Dona Adélia Que mesa mais farta E tudo tão cheiroso Amanheci faminta, sou capaz de comer um boi Que parar com essa cantoria e me servir, por favor?
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Desculpe, mas é que eu tô tão feliz. Tá se vendo. Obrigada, viu, Dona Adélia?
01:05
Chega de leite. Obrigada do quê?
01:07
Da senhora me dar o fim de semana de folga, pra eu poder viajar com o Benedito. Ora, o que é um fim de semana pra quem trabalha tanto e com eficiência como você? O café, sim.
01:20
A senhora é uma verdadeira anja. Anja? Se fosse homem, seria anjo.
01:27
Mas como é mulher... Mas que bobagem, Chica. Anjos não têm sexo, não sabia? Eu não. Então a senhora é anjo mesmo. Pare com isso.
01:38
Lugar de anjo é no céu. E na terra também. A senhora, queira ou não queira, para mim é um verdadeiro anjo.
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Me trata como se eu fosse da família? Sim. E nem poderia ser diferente. Você trabalha nesta casa há mais de dez anos. Me passe o cesto de pães, sim.
01:55
Mas não é todas as patroas que pensam assim. Tem algumas que tratam as empregadas como se elas fossem escravas.
02:02
Gente infeliz que tem fel no coração e se julga superior. O queijo, sim.
02:08
Ai, não vejo a hora de conhecer a família do Benedito. Será que eles vão gostar de mim?
02:15
É claro que sim, sua boba. Você é uma boa moça, educada, responsável. Mas tão chucra. Mas sei ler e escrever. Nem sei falar direito. Não se menospreze Você tem uma alma pura e um coração de ouro Isso é o que vale Tenho certeza que eles vão te adorar e aprovar a escolhida do Benedito Eu não digo que a senhora é um anjo? Pare com isso e vá preparar as torradas do Lorival Que ele já está chegando para tomar o café Sim, sim senhora, agora mesmo É impossível não gostar de uma criatura como ela Que calor insuportável
02:56
Acabei de sair do banho e já estou transpirando. A temperatura hoje vai passar dos 35 graus, quer apostar?
03:02
Ah, não reclame, querido. O verão é uma estação tão alegre...
03:06
Pois eu prefiro o inverno. Além de ter mais disposição, come e durmo melhor.
03:12
Não me venha com essa que você nunca perde o sono e nem o apetite. Dorme feito um urso e come que nem um elefante, seja lá que estação for.
03:21
É, você tem razão. E dou graças a Deus por isso. Que seria de mim que trabalho tanto se não dormisse nem comesse bem?
03:28
Vou servir o seu suco.
03:34
A Chica já vai trazer as suas torradas.
03:37
O Nilson ainda não se levantou?
03:38
Já. Ele está na garagem lavando o carro.
03:41
Ele vai sair?
03:43
E esse menino para em casa nos fins de semana? Parece que vai passar o dia no clube com a namorada.
03:49
Quando é que ele vai se dignar a trazer a moça aqui em casa para a gente conhecer?
03:52
Qualquer dia desses, ele me prometeu.
03:56
Pronto as suas torradas, seu Lorival.
03:58
Obrigado, Chica.
04:00
Dona Adélia? Sim? Eu tirei um frango do freezer, descongelei e temperei para o almoço. Já deixei tudo no forno. É só a senhora ligar para assar. E também já lavei a verdura para a salada. Arroz a senhora não precisa cozinhar porque sobrou bastante do jantar. Ah, que ótimo! E o café da vovó? Já está tudo prontinho na bandeja. É só levar no quarto para ela. Fez o mingau de aveia? Do jeitinho que ela gosta. Muito bem, Chica! Agora eu vou tomar um banho e me arrumar que estou em cima da hora.
04:35
O Benedito vai passar por aqui para te pegar? Não, senhora. A gente combinou de se encontrar na rodoviária. O ônibus sai às nove horas. Tudo bem, Chica. Desejo que vocês tenham uma boa viagem. Obrigada. E fique sossegada que amanhã de tardezinha eu estou de volta. Dá licença.
04:54
Que história é essa? A Chica vai viajar com o namorado?
04:57
Sim, eles vão para Bauru. O Benedito vai apresentá-la à família.
05:01
E vamos passar o fim de semana sem empregada?
05:03
Qual o problema?
05:04
Você vai se enfurnar na cozinha dois dias.
05:07
Isso não é o fim do mundo. A coitada precisa conhecer a família do namorado, já que pretende ficar noivos e se casarem.
05:14
É, a coisa está tão adiantada assim, é?
05:18
Pois é. Ela me disse que eles pretendem se casar no início do segundo semestre.
05:22
Opa! Quem é que vai se casar? Bom dia, pai.
05:26
Bom dia, Nilson.
05:27
A Chica, filho. A Chica? É. Já faz um ano que ela e o Benedito estão namorando. Hoje eles vão para Bauru para ele apresentá-la à família. E se tudo der certo, eles se casam no segundo semestre.
05:39
Então vamos ficar sem empregado, hein?
05:42
Engano seu... Ela me disse que mesmo depois de casada... Vai continuar trabalhando para nós... Só não vai morar mais aqui, é evidente...
05:50
Ela virá de manhã e irá embora à noite... Seria uma pena nos privarmos do trabalho da Chica... Empregado honesto e eficiente como ela...
05:57
Não existe mais na face da terra... Eu te sirvo, filho... Obrigado, mãe... É só café preto, sim?
06:04
O Benedito é um grande sujeito, hein... Um pedreiro de mão cheia e muito trabalhador... Tenho certeza que eles serão muito felizes...
06:12
É... pão ou bolo, querido? É uma fatia de bolo, bem fininha.
06:17
E você, Nilson? Quando é que vai se ajeitar na vida?
06:20
Eu já estou ajeitado, pai. Que papo é esse?
06:22
Você sabe muito bem do que eu estou falando. Ô, rapaz, você já está com 25 anos. Não acha que está na hora de sossegar o facho e assumir uma família? Epai, sem essa.
06:32
Eu já disse que só vou passar para o rol dos homens sérios depois dos 30. Por enquanto, quero viver a vida sem responsabilidade. Responsabilidade matrimonial, porque profissional eu tenho até de sobra, né?
06:45
Mas você já está namorando com essa tal de Débora há um tempão. E daí, mãe? Ora, você não a ama?
06:51
Claro que a amo. E muito.
06:53
E ela? Também é louca por mim. Então por que essa decisão de se casar depois dos 30 anos?
06:58
É, porque eu acho que o homem só está maduro e apto para isso depois dos 30. Que besteira, Nilson. É a minha maneira de pensar, mãe. Eu tenho dois amigos que se casaram completamente apaixonados. Um com 22 e outro com 24 anos. Me perguntem se eles estão com as respectivas esposas.
07:15
Ah, se não estão é porque não havia amor da parte delas.
07:18
Havia, e muito, como a Débora e eu. Mas eram imaturos, irresponsáveis, e bem logo perceberam que cometeram uma tolice se casando porque ainda não tinham se divertido o suficiente. E eu não quero correr esse risco. Ainda tenho muito para ver e para conhecer antes de me amarrar. E a Débora também. Ela também pensa dessa forma? Pensa. E é o que faz com que nossa relação esteja durando. Casamento só depois dos trinta.
07:44
Por que não atrás aqui, para que a conheçamos?
07:48
Sai já do meu quarto! Seu cachorro sem vergonha!
07:54
Aqui não há lugar de fazer xixi!
07:57
Chica! Vem atirar o Jupira do meu quarto! Chica! Vem atirar o Jupira do meu quarto!
08:06
Chica!
08:10
Ai, hoje o dia promete. Essa maldita velha acordou com tudo. Não sei por que que essa praga não morre e nos deixa em paz. Está vendo por que eu não trago a Débora aqui em casa?
08:26
Nilson Moraes, 25 anos, bem apessoado e bom caráter, recém-formado em arquitetura, rodava com o seu carro pelos bairros da cidade interiorana, em que residia, avaliando os prédios novos e o patrimônio tombado por valor histórico, além de construções em andamento, a fim de avaliar o panorama urbanístico relacionado com a sua profissão.
08:50
A cidade está crescendo a cada dia. Conceição de Alpina está deixando de ser um ponto perdido no mapa. O progresso é notório até em seus pacatos habitantes que já não se vestem como jecas.
09:08
Foi numa dessas incursões que conheceu Débora, a quem passou a chamar carinhosamente de Debbie. Moça bonita, meiga, mesma idade dele, 25 anos, professora primária com cadeira na humilde escolinha da cidade.
09:24
Não demorou a sentir o coração bater mais forte, embora pensasse da maneira exposta no diálogo da cena anterior com os pais.
09:33
Eu a amo e sou correspondido, mas casamento só depois dos trinta.
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Meia hora depois, estavam juntos, trocando carícias.
09:50
Diga de novo que me ama.
09:52
Eu não acredito que você esteja influenciada por esses filmes que passam a tarde na televisão.
09:57
Ah, só porque eu gosto que você repita que me ama?
10:01
Eu sou homem com H maiúsculo, querida.
10:05
Só se for no início da frase.
10:07
O que eu quis dizer é que tem uma palavra só.
10:11
Mentira! Você conhece todas as palavras do dicionário, a julgar pelo tanto que fala.
10:18
Ah, engraçadinha. Homem de uma palavra só é aquele que não mente. E se eu disse que te amo, é porque te amo mesmo?
10:25
Você gosta de cafuné?
10:26
E quem não gosta?
10:27
Pois a declaração de amor é como um cafuné para a alma. E quem é que se contenta com apenas um cafuné?
10:35
Tá bom, tá bom. Você quer que eu massageie o seu ego, não é? Vai lá. Eu te amo.
10:43
Não acredito.
10:44
Ah, deixa de brincadeira.
10:45
Se você me ama mesmo, por que me diz que só pretende se casar depois dos 30 anos?
10:50
Eu já te expliquei, Debbie. 30 anos é a idade do amadurecimento, tanto para o homem como para a mulher. Antes disso, eles são volúveis e inconsequentes. Não aproveitaram tudo que a vida tem de melhor. É, eu concordo com você. Mesmo? Acredite. Então não se fala mais nisso.
11:08
Prometo que não tocarei na palavra casamento, mas tem uma coisa que me intriga em você.
11:14
O que é?
11:15
Independente do casamento, eu não vejo razão para não conhecer sua família. Por que não me leva a sua casa? Eu já te levei na minha. Faz três meses que estamos juntos e sua família não me conhece. O que me faz crer que tem alguma prevenção contra mim.
11:33
Mas é claro que não. Eles iam adorar te conhecer.
11:37
Então, o que acontece?
11:39
Nada. Por favor, Nilson.
11:41
Isso não é resposta.
11:42
E o que você quer que eu responda?
11:44
O motivo de você me esconder dos seus pais.
11:47
Eu não estou te escondendo.
11:49
É claro que está. Qual é o segredo?
11:51
Segredo?
11:52
Seja franco. Serei no mínimo compreensiva.
11:57
Você tem cada uma...
11:58
Qual é o segredo, Nilson? Me diga.
12:01
Não se trata de nenhum segredo.
12:03
Então se abra.
12:06
Vamos deixar esse assunto para outra hora, tá?
12:08
Não, senhor. Eu quero saber agora por que você não me leva à sua casa.
12:13
Tá bem, tá bem. Já que você insiste... Fala, estou esperando. É que a minha casa é um tanto tumultuada, Debbie.
12:23
Como assim?
12:24
Nem sempre existe paz, harmonia, entende?
12:28
Muita... Muita briga? Eu diria...
12:31
Desentendimentos E por quê? Por causa... Da minha bisavó Ah...
12:37
Eu não sabia que você ainda tinha bisavó Pois tenho Quantos anos ela tem?
12:42
Não sei exatamente, mas deve... Deve estar beirando os 80 ou mais E o que ela faz para causar desentendimentos na sua família? Bobagens, só bobagens Coitadinha Meu pai não a tolera por isso É avó dele? Não, da minha mãe. Se fosse avó dele, ele teria mais paciência com ela. Compreendo. Ela não diz coisa com coisa, entende? Às vezes imagina que está vivendo no passado. Fala de pessoas que já morreram como se estivessem vivas. É caduquice? Das brabas.
13:14
Faz coisas que você nem imagina. Que tipo de coisas? Some com objetos, joga coisas de valor no lixo, rasga tudo quanto é revista que vê pela frente...
13:25
Sabe o que ela fez outro dia? O quê? Pegou uma lata de querosene que a nossa empregada usa para limpeza da casa e despejou inteirinha dentro da geladeira. Ah, que horror! E daí? Daí é que estragou tudo o que tinha dentro, né? E pior, tivemos que comprar uma geladeira nova porque aquela não tinha mais condições de ser usada.
13:45
Ela não tem noção do que faz, pobrezinha.
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Eu sei, eu sei, mas diga isso para o meu pai.
13:51
Ele se implica com ela a ponto de provocar desarmonia no lar?
13:55
É, é isso mesmo. Minha bisavó é que nem criança. A gente tem que ficar em cima 24 horas, vigiando, vigiando, senão ela bota fogo na casa. Aliás, ela já tentou isso mais de uma vez. Ai, que perigo. Tudo tem que ser trancado à chave para ela não mexer.
14:12
É, e por isso meu pai quer botar ela num asilo, mas a minha mãe não concorda de jeito nenhum.
14:17
Daí as desavenças?
14:19
Exatamente.
14:20
Puxa, mas que situação.
14:23
Eu tenho pena da minha mãe que sofre pela falta de paciência do meu pai. Não tem um dia que os dois não briguem por causa da velhinha.
14:40
O que é isso?
14:41
Nada.
14:42
Eu não sou cego, Adélia. Onde você vai com essas roupas de cama?
14:46
Botar no tanque para lavar, ora.
14:48
Não me diga que essas roupas são da cama da... Mas que fedor miserável é esse?
14:54
A sua bisavó alinou na cama de novo.
14:57
Ela não consegue segurá-la, Orival.
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Velha desgraçada.
15:00
Não fale assim. Procure entender.
15:02
Eu não quero entender nada. Eu só quero que ela morra e vá para os quintos dos infernos para deixar a gente em paz. Você pensa que ela faz por gosto? Eu acho que faz, sim. Só para atrasar com a minha vida e com a sua também.
15:13
Isso não é verdade.
15:14
Ela sabe que a Chica está viajando e se urina toda para te dar trabalho.
15:17
Pare de falar besteira.
15:18
E você fica avisada, Délia. Eu não vou mais trocar o colchão daquela fedorenta. De agora em diante, ela vai dormir no meio da urina até apodrecer.
15:26
Não seja desumano, por favor.
15:28
Eu não aguento mais a presença dessa velha louca, isso sim.
15:31
Pare de referir a minha bisavó como essa velha. Você também vai envelhecer um dia.
15:35
Como todo mundo, mas não vou ficar louco.
15:37
Quem é que pode garantir?
15:38
Ah, pois se isso acontecer, me interne no manicômio, para eu não infernizar a vida de ninguém.
15:42
É isso que você quer fazer com ela, não é?
15:44
Lá é que é lugar de louco.
15:46
Ela está caduca, mas não é louca. E enquanto eu for viva, minha bisavó não sai desta casa.
15:58
É por isso que eu não quero te levar em casa, Debbie. Você não iria se sentir bem num ambiente tão conturbado. Isso é uma grande desculpa, Nilson.
16:07
Em todos os lares existem desentendimentos. Meus pais também brigam. Meus irmãos se degladiam por qualquer coisinha.
16:16
É, mas nada é comparável ao que acontece na minha casa.
16:19
Me responda uma pergunta com toda sinceridade.
16:22
Manda.
16:23
Você interfere nas discussões dos seus pais quando elas são originadas por alguma coisa que sua bisavó fez?
16:31
Não. E por quê? Ora, porque... Ah, sei lá. Acha que eu deveria interferir?
16:38
Você gosta da sua bisavó?
16:41
Bem, eu... Ei, por que isso agora, Debbie? Você não respondeu a minha pergunta. Gosta da sua bisavó?
16:50
Apesar de quase não falar com ela, ela nunca me fez nada para eu não gostar.
16:54
Então, por que não se alia sua mãe em defesa da pobre velhinha?
17:00
Ora, Debbie, isso não iria curar sua caduquice.
17:04
Claro que não, mas te garanto que a ajudaria muito.
17:08
Você acha?
17:09
É, a velhice é o estágio mais triste na vida das pessoas, meu querido. Quem é que gostaria de envelhecer?
17:18
Todo afeto, amor e carinho que oferecemos aos idosos ajudam a suportarem o peso dos anos.
17:26
Procure se aproximar de sua bisavó.
17:29
Dedique alguns minutos por dia a ela. Apenas alguns minutos. E você vai ver como ela vai melhorar.
17:38
Ora, Deb, isso não a impedirá de quebrar coisas e fazer tantas outras bobagens Se ela se sentir amada, querido Minha mãe a ama E tanto que abomina a ideia do meu pai de interná-la Não basta apenas o amor da sua mãe, Nilson Nem pense em mudar o procedimento do meu pai Porque é mais fácil chover dinheiro do que ele gostar da velhinha Quando ele perceber que está sozinho em sua intransigência Quem sabe? Você acredita que isso é possível?
18:07
Tudo é possível quando é movido pelo amor, meu querido.
18:11
Francamente, você me surpreende. E nem fala com conhecimento de causa, porque, que eu saiba, você não tem a voz.
18:18
— Infelizmente, os pais do meu pai eu não conheci, porque morreram quando eu ainda era pequena. Mas adorava os pais da minha mãe. E até hoje ainda fico triste quando me lembro da morte trágica que tiveram.
18:32
— Acidente?
18:33
— De carro.
18:35
Estavam indo para Santos passar uns dias na praia, quando o vovô se perdeu na direção.
18:42
O veículo saiu da pista, chocou-se contra a grade de proteção da estrada e precipitou-se no abismo, caindo no mar. O corpo dele ficou preso nas ferragens, mas o de vovó nunca foi encontrado.
19:07
Domingo, ao entardecer, Mariquinha, a velhinha, olhava fixamente para um retrato amarelecido, pendurado na parede do seu quarto, mostrando moço de olhos grandes, cabelos negros e encaracolados e grandes bigodes. E conversava como se o retrato tivesse vida.
19:27
Amanhã você vai me levar para tirarmos um retrato juntos, viu, Luiz? E fale para o retratista que não precisa dizer, olha o passarinho, olha o passarinho, que eu já não sou nenhuma criança.
19:44
E de repente ela para de falar, olha para o lado e grita apavorada.
19:50
Sai já do meu quarto, Jupira! Adélia! Vem atirar esse gachorro do meu quarto!
20:11
Ate!
20:15
Eu não quero explicar sorra aqui. Adélia! Eu não gosto do Jupira. Ele lambe a minha cara e baba.
20:25
Oh, vovó. Eu vou repetir até gastar a língua. Não temos nenhum cachorro em casa. O Jupira morreu há muitos anos logo depois que... Não minta pra mim, Adélia.
20:37
Olha o Jupira ali perto da cômoda.
20:40
Não adianta.
20:42
Fora daqui, Jupira!
20:44
Tá vendo? O danado pulou a janela! Já falei pro Luiz dar ele de presente pro seu Manoel da Quitanda!
20:56
Mas o Luiz é teimoso! Vovó, caia na realidade. O Jupira não existe mais, nem o seu Manuel, tampouco o vovô Luiz. Enfrente a verdade com coragem e Deus vai ajudar a senhora. Seu marido fugiu contra a mulher dois meses depois que a minha mãe nasceu. Minha mãe, a sua filha, a senhora não se lembra?
21:18
Lúcia? Sim, Lúcia, minha mãe, a sua filha, vovó. Está se lembrando dela? Lúcia...
21:32
que me lembro da minha filha ainda bem eu me lembro também do dia em que você nasceu é verdade você era tão gorduchinha tão fofinha quem é Lúcia?
21:53
minha mãe. Eu não me lembro de nenhuma Lúcia.
21:57
Mas a senhora acabou de dizer que... Ah, chega de falar mentiras. Diga pra Lúcia fazer um licor de sidra pro pai dela. O Luiz adora licor de sidra.
22:09
O vovô Luiz, minha mãe Lúcia não estão mais entre os vivos. Eles já morreram, vovó.
22:16
Olha lá! O Jupira está espiando pela janela para entrar aqui dentro. Entrar aqui outra vez. Fora daqui, cachorro, sem vergonha! Pare com isso, vovó, pelo amor de Deus.
22:30
Tô apertada. Quero ir ao banheiro.
22:35
Você me ajuda? Claro que ajudo. Venha.
22:40
Não precisa mais. Oh, vovó, se urinou de novo? Eu troquei a senhora não faz meia hora. Olha aí, tá toda molhada.
22:49
Se você entrar no meu quarto de novo, eu furo teus olhos, chupira.
23:01
É, às vezes eu chego a pensar que o pai tem razão em querer internar minha bisavó, sabe?
23:07
Pelo amor de Deus, Nilson. Jamais eu vou permitir uma coisa dessas. Mas ela está cada dia pior, mãe. Não importa. Eu aguento. Para interná-la, seu pai vai ter que passar por cima do meu cadáver.
23:19
Não pense que eu sou a favor. Mas está falando como ele. É porque vejo a senhora se matando de tanto trabalho. Passou o sábado e o domingo lavando roupa, limpando aquele quarto. Podia deixar para a Chica fazer isso. Daqui a pouco ela chega de viagem.
23:34
Vai chegar cansada, coitada. Eu não podia deixar a vovó dormir naquele quarto fedendo urina. Não seria humano.
23:41
Graças a Deus já está tudo limpo. E cadê o pai? Está jogando carta na casa do seu Marcelino.
23:48
Ainda bem que ele não viu a última que a vovó aprontou, senão ia armar outro barraco.
23:52
Você tem toda razão. Está com fome? Nós já jantamos, mas se quiser eu te preparo alguma coisa... Não, não precisa. Eu comi uma pizza com a Débora depois do cinema. Vocês passaram o fim de semana inteirinho juntos? Tinham tanta coisa para conversar assim, é? Rebota e conversa nisso.
24:09
A Débora se revelou uma pessoa surpreendente, sabe, mãe?
24:12
Vocês namoram há três meses e só agora você percebeu isso? Pois é. Não é estranho? Sei lá. Não sei do que vocês conversaram. Foi a respeito da vovó. E esse assunto interessa para ela?
24:24
É, mais do que a senhora imagina. Sabe que ela me fez entender algumas coisas que eu nunca tinha me apercebido? Que tipo de coisas? Bem, sente-se aqui ao meu lado. Eu vou te contar.
24:34
Quase meia hora depois...
24:36
Puxa, filho, eu estou surpresa com o que você me contou. Essa Débora é mesmo uma pessoa maravilhosa.
24:42
Eu também acho. Eu pensei muito em tudo que ela disse a respeito dos idosos e...
24:48
Eu tomei uma decisão. De agora em diante, a senhora pode contar comigo. Eu vou ajudá-la a tratar da vovó. Quem sabe a Débora não tem razão, né? Um pouco de afeto, amor, carinho só pode fazer bem para a coitada, não é mesmo?
25:01
Claro, querido, claro. Como eu gostaria que seu pai também pensasse assim.
25:16
E Nilson não decepcionou a mãe. O pouco tempo disponível que tinha, procurava passar ao lado da pobre velha, dispensando-lhe toda a atenção e até lendo histórias para ela. Lorival estranhou a atitude do filho.
25:31
O que é que você e o Nilson estão armando, hein?
25:34
Não sei do que você está falando.
25:36
Volta e meia, ele se tranca naquele quarto fedorento com a velha. O que é que ele faz lá?
25:41
O que você não faz. Conversa com ela, dá-lhe atenção.
25:46
E pensa que com isso vai curar a loucura da velha?
25:48
Ela não é louca. Quantas vezes vou ter que repetir?
25:51
É louca sim. Louca varrida de pedra. E quer você queira, quer não. Mas dia menos dia eu é interno no hospício.
25:58
Só se você me matar antes.
25:59
É inútil você insistir em tapar o sol com a peneira, Adélia. Sua avó não tem cura. Convença-se disso de uma vez.
26:05
Pode ser que não. Mas não vou permitir que morra sozinha e abandonada como você deseja. Desta casa ela só sai quando Deus a chamar. Pode esbravejar à vontade.
26:15
Pensa que eu sinto prazer em brigar com você por causa dela, não é?
26:18
Se não sente, por que não procura entender a situação? E cega o exemplo do nosso filho?
26:22
Era só o que me faltava.
26:24
Ela não te faz mal nenhum, Florival.
26:26
Mas dá prejuízo. E como dá?
26:29
Custa ser um pouco tolerante?
26:31
Eu a tolero desde que nos casamos. Já faz 26 anos.
26:34
Ela só ficou assim de dois anos para cá. E não vive aqui de graça.
26:38
O que ela ganha da aposentadoria fica tudo na farmácia. Eu não pego um tostão do seu salário, você sabe disso. E que remédios caros.
26:46
Se ela não tomar, não tem ânimo pra nada. Em compensação pra encher o pandu, ela tem uma disposição... Você me tira do sério quando renega até um pratinho de comida que ela come. Pratinho?
26:59
Se eu comesse um terço do que ela manda pro bucho, já teria explodido, que nem a Dona Redonda da novela Saramandaya.
27:04
Chega, Lorival! Eu juro que se fosse uma mulher independente, alugava um quartinho e ia morar com a vovó bem longe de sua mesquinhez.
27:13
Adélia! Adélia!
27:16
Acho que dessa vez eu passei dos limites.
27:18
Mas que gritaria é essa? O que aconteceu? Nada. Estava brigando com a mãe por causa da vovó outra vez, não é, pai?
27:24
E foi isso mesmo. Aquela velha está acabando com o nosso casamento, sabe?
27:27
O senhor mesmo é que está contribuindo com isso com a sua intolerância.
27:30
O que eu posso fazer se eu não tenho vocação para bom samaritano como vocês dois?
27:44
Adélia e Lourival permaneceram dois dias sem se falar por conta dessa última discussão. Nilson, entretanto, com jeitinho, acabou reconciliando os pais.
27:57
Me desculpe, Adélia. Eu reconheço que extrapolei, mas prometo que vou me controlar para que isso não aconteça mais.
28:04
Você já prometeu tantas vezes, Lorival.
28:07
Eu ando estressado, tenho trabalhado muito, e isso tem contribuído para o meu constante mau humor.
28:13
Por que não ter umas férias?
28:15
Eu tenho pensado seriamente nisso. Acontece que o escritório...
28:18
O escritório não irá à falência se você ficar ausente duas ou três semanas. Você é um dono e a sua equipe muito competente. Poderíamos fazer uma viagem para o campo ou talvez para a praia. Faz tanto tempo que não vamos a lugar nenhum.
28:32
É, eu acho que você tem razão. Eu vou acertar umas coisas com o meu pessoal e marcar uns dias de folga.
28:38
E quando você vai fazer isso?
28:40
Amanhã. Não, hoje. Hoje mesmo. Estamos na metade da semana. Podemos decidir pela praia ou pelo campo e viajar no sábado? O que acha?
28:49
Acho ótimo.
28:50
Mas e a... digo, a sua avó?
28:53
A Chica e o Nilson tomarão conta dela. Não se preocupe.
29:02
Naquela noite, Lorival chegou em casa eufórico. Já se considerava em férias. Nilson sugeriu que os pais fossem para um hotel fazenda, onde a tranquilidade e o contato com a natureza ajudariam Lorival a eliminar o estresse e recuperar o bom humor. No dia seguinte, Lorival ligou para uma agência de viagem e fez a reserva.
29:25
Chica, durante duas semanas a casa vai ficar sob a sua responsabilidade Podem viajar sossegado que vou cuidar dela como se fosse minha E a vovó também Não se preocupe com ela, mãe Nós daremos conta do recado, não é, Chica?
29:40
Sim, sim, claro, com certeza Está feliz, querida?
29:45
Por você que está precisando desse afastamento Vamos sair para fazer umas compras? Precisamos de umas roupas esportivas É uma boa ideia
30:00
Tudo transcorreu tranquilamente na residência de Lourival, enquanto ele e a esposa estavam ausentes. Nelson e Chica se desdobravam nos cuidados com Dona Mariquinha, E esta apresentava uma certa tranquilidade. Um dia antes do retorno dos donos da casa... Mirzo! Fale, Chica!
30:21
Os patrões vão chegar amanhã e eu estou precisando de umas coisas. Você não quer ir no supermercado comprar? Eu não posso deixar a dona Marquinha sozinha.
30:31
Claro! O que é que está faltando?
30:33
Está marcado nesta listinha.
30:36
Mas não repare na minha letra feia. Eu mais sei escrever.
30:40
Deixa eu ver.
30:42
Tá dando pra entender? Tá sim, Chica.
30:46
Eu vou pegar a chave do meu carro e em uma hora a compra estará aqui. Não descuide da vovó, tá bem? Não se preocupe.
30:58
Quando Nilson retornou do supermercado... Aqui estão as compras, Chica.
31:03
Eu espero que não tenha me esquecido de nada.
31:06
Assim que ele botou os pés na cozinha, Chica desabou num pranto convulsivo.
31:14
Por que você está chorando?
31:16
Ai, nisso aconteceu uma coisa horrível O que foi? A dona Marquinha O que tem ela? Aproveitei que ela estava dormindo sossegada e fui lavar umas peças de roupa Ela acordou sem eu perceber, pegou uma tesoura e foi lá para a garagem Fazer o que?
31:36
sei como ela conseguiu entrar no carro do vosso pai vai lá ver o estrago os bancos do carro estão tudo retalhado meu Deus preciso ver isso de perto Chica não havia exagerado minha nossa senhora quando meu pai ver isso vai ficar louco
32:04
Três dias depois... Quer mais carne, Lorival?
32:09
Não.
32:09
Você gosta tanto de carne assada... Já disse que não quero, que coisa!
32:14
Ainda bem que a velha jantou no quarto dela hoje.
32:16
Por favor, Lorival, não volte a tratar a vovó com hostilidade.
32:20
Você ainda tem coragem de me pedir isso depois do que ela fez com o meu carro?
32:24
A culpa foi minha e da Chica, pai. Um minuto que descuidamos e...
32:27
Eu bem que queria ter viajado com o meu carro, mas sua mãe não quis...
32:31
Eu não gosto que você dirija na estrada.
32:33
Deu no que deu.
32:34
Eu só te peço que seja tolerante.
32:36
Eu já faço muito de permitir que ela continue aqui. Lugar de louco é no manicômio.
32:40
Por favor, Lorival.
32:42
Não puxe encrenca, Délia.
32:43
Eu não acredito que essa viagem não tenha servido para melhorar o seu humor.
32:48
O quê? Você ainda acha que eu devo rir do que a desgraçada da sua avó fez?
32:52
Parem com isso, pelo amor de Deus. Será que não se pode ter um dia de paz nesta casa? Filho, você não terminou o seu jantar?
33:00
Está afim do que você fez?
33:11
Está se sentindo melhor?
33:13
Nos seus braços eu nem me lembro mais que a minha casa voltou a se transformar num inferno Não fale assim, Nilson Quando eu imaginava que tudo ia mudar, eis que novamente começam as discussões, as intolerâncias.
33:27
Por que a minha avó teve que fazer aquilo? Acha que se ela tivesse consciência, teria feito? Todo o tempo que perdi me dedicando a ela não adiantou de nada. Pedir tanto para ela não fazer mais travessuras e ficar... Ficar quietinha, a fim de evitar discórdia, mas... Tudo em vão. Não foi em vão, querido. Eu tenho certeza. Deixa isso para lá.
33:51
Vamos sair um pouco para eu espairecer? Onde você quer ir? Dançar. Faz tempo que não vamos dançar.
33:57
Você espera eu me arrumar?
33:59
Eu espero todo o tempo do mundo, meu amor.
34:02
Mas antes... Me dá um beijo.
34:06
Estou louca de vontade.
34:19
Posso entrar?
34:20
O que você quer? Não basta de briga por hoje?
34:23
Eu só quero conversar.
34:25
Entre.
34:28
Adélia, você sabe que eu sempre te amei e sua avó não vai alterar o meu sentimento a seu respeito.
34:34
Mas, do jeito que as coisas vão indo, qualquer dia ela incendeia a casa e nos mata todos.
34:41
— Fizemos uma viagem tão bonita, eu jurei que ia mudar minha maneira de agir, mas compreenda. Ela destruiu todo o estofamento do carro que eu troquei não faz dois meses. Eu tentei me conter, mas acabei explodindo. — Por favor, mais uma vez eu te peço que me perdoe.
35:01
Eu não tiro a sua razão em ficar zangado, Lorival, mas tenha um pouco mais de paciência. Alguma coisa me diz que ela vai melhorar.
35:10
Ah, ingênua ilusão, Adélia. O mal da sua avó só pode piorar. Melhorar nunca.
35:16
Ela vai melhorar, sim. Você vai ver. Tem orado tanto, pedido tanto ao nosso pai maior. E ele vai me atender.
35:24
Querida, escute. Eu andei me informando. Existem boas clínicas nessa cidade. Ótimas clínicas espalhadas por esse Brasil. E especializadas em... Em casos como o da sua avó. A gente poderia dar uma olhada e... Por favor, Lorival.
35:42
Confie em mim. Vovó vai melhorar.
35:46
Você aceita que eu lhe dê um prazo para que isso aconteça?
35:49
Me dê seis meses. Se ela não melhorar, serei a primeira a concordar e interná-la numa clínica.
35:56
É muito tempo.
35:57
Cinco meses, então.
35:58
Quatro.
35:59
Tá bem. Quatro meses.
36:01
Nada mais que isso?
36:02
Eu te prometo, nada mais.
36:04
Ótimo. Que tal comemorarmos este acordo?
36:07
Comemorar? Como?
36:09
Poderíamos ir ao cinema. O que acha?
36:11
Agora? Já passa das oito horas.
36:14
Pegamos a sessão das dez. Qual é o problema? Está acontecendo um festival de filmes italianos no Cine São Luís e eu gostaria que você assistisse A Mulher do Rio com Sofia Loren.
36:25
Você sempre foi doido pela Sofia Loren, não é?
36:29
É, sou fanzão dela desde que era moleque.
36:31
E esse filme é bom?
36:33
É talvez o melhor que ela tenha feito em toda a sua carreira. Já procurei nas locadoras para comprar, mas não encontrei. Nem mesmo na capital.
36:40
É comédia?
36:41
Não, é um drama emocionante. E recomendo que leve o lenço, porque você vai derramar muitas lágrimas.
36:48
Ah! Lorival, já não chega de tanta tristeza.
36:51
Ah, meu amor, eu nunca me esqueci desse filme e gostaria de assistir de novo. Como é um festival, amanhã ele não estará mais em cartaz.
36:59
Tudo bem. Vamos assistir A Mulher do Rio.
37:12
Pronto, já penteei os seus cabelos. Agora a senhora vai ficar aí quietinha que eu vou buscar o seu chá.
37:21
Vou repartir o meu chá com aquela feiosa. Que feiosa? A Lazinha Batista. Quem é essa? Você não conhece?
37:30
Eu não. Nunca vi mais gorda.
37:35
Isso mesmo. Vou chamar ela de gorda. Ela vai ficar eririca. Porque ninguém gosta de ser chamada de gorda. Ah! A Lazinha Batista é feiosa e gorda...
37:52
A Lazinha Batista é feiosa e gorda... Tem hora que a senhora gosta de fazer uma piadinha, né? Mas me diga... Quem é essa mulher?
38:01
Vou falar no seu ouvido pra ninguém escutar... Abaixa aqui... Pode falar...
38:09
Tô escutando... Quem é Lazinha Batista?
38:12
É a Sirigaita que tá dando em cima do meu marido...
38:18
A senhora tem cada uma. Mas eu vou falar pro Luiz que além de feiosa, ela é gorda. O Luiz não gosta de mulher gorda. A Lazinha Batista é feiosa e gorda. A Lazinha Batista é feiosa e gorda.
38:36
Tudo bem que ela é feiosa e gorda, mas agora trate de ficar quietinha aqui no seu quarto que eu vou buscar o seu chá. Nem pense em sair daqui ou o seu Lorival te passa um pito, hein?
39:10
Uma semana depois, Nilson prepara-se para uma viagem a Belo Horizonte, 500 quilômetros distante da pacata Conceição de Alpina. Um bom contrato de trabalho à vista e ele não gostava de viajar de avião.
39:24
Você pretende ir no seu carro?
39:27
Exatamente.
39:28
Mas é uma viagem muito longa.
39:30
Eu sei, Debbie, mas eu não entro em avião nem que a vaca tussa.
39:35
E como surgiu essa proposta de trabalho?
39:38
Bem, eu recebi o convite através de um amigo do meu pai, que é gerente de uma empresa famosa em BH e que será responsável pela construção de um edifício de 25 andares. Ele quer que eu projete a obra, entende? É uma oportunidade de ouro e eu não posso perder. Mas já está tudo acertado? Estou indo para lá justamente para isso. A proposta é excelente, mas eu preciso me inteirar de todos os detalhes antes de assinar o contrato.
40:04
E quanto tempo você pretende ficar por lá?
40:07
Bem, eu não sei exatamente, mas eu acredito que em uma ou duas semanas tudo estará resolvido. A obra mesmo só terá início dentro de cinco meses. É quando terei que me mudar para lá.
40:18
Ei, você não quer ir comigo, não? Eu ia adorar a sua companhia.
40:24
Bem que eu gostaria, mas eu não posso abandonar os meus alunos se estivéssemos em época de férias.
40:32
É uma pena.
40:33
E quando você viaja?
40:34
Segunda-feira, logo pela manhã. Você vem se despedir de mim, não é? Claro, meu amor. Passaremos o domingo juntos para comemorar o meu primeiro trabalho importante, desde que me tornei arquiteto.
40:53
Na noite daquele dia, durante o jantar. Animado, filho?
40:57
E como, pai? Eu não vejo a hora de ensinar esse bendito contrato. E botar a mão na massa, né? Na verdade, é o que mais desejo.
41:06
Não se esqueça das minhas recomendações. Estude o contrato minuciosamente, item por item. Não é que eu desconfido, Rubens. Ele é um homem digno e honesto. Somos amigos desde que éramos jovens. Fizemos direito na mesma faculdade, mas... Precaução? Nunca fez mal a ninguém. Se você tiver dúvidas sobre algum detalhe, me ligue imediatamente.
41:26
Claro, pai.
41:27
Fique frio. Só não estou gostando de você ir de carro, Nilson. Essas estradas são tão perigosas.
41:33
Ele é um bom motorista, Adélia.
41:35
Eu sei, mas se fosse de avião, eu ficaria mais tranquila. A senhora sabe que eu não viajo de avião, mãe. Eu tenho medo do que posso fazer. É uma bobagem, porque avião é transporte mais seguro que existe. É, pode ser, mas eu sou da opinião que voar é para pássaros. Você vai chegar em Belo Horizonte cansado, com dores pelo corpo. Eu vou parando aqui e ali para descansar, mãe. Não se preocupe. Ainda assim. Você precisa superar esse medo de avião, filho.
42:05
Na segunda-feira, por volta das sete horas da manhã...
42:08
Tome muito cuidado, meu filho. Não pare pra dar carona pra ninguém. Essas estradas estão cheias de assaltantes.
42:15
Tá bom, tá bom, dona Adélia, tá bom.
42:17
Você mandou fazer revisão no carro, né?
42:20
Ele tá temendo. Tá levando estepe? Claro, pai.
42:23
Podia esperar o dia ficar um pouco mais claro.
42:25
E a senhora não vê a minha ansiedade, mãe? Eu não vejo a hora de chegar em Belo Horizonte.
42:30
Pelo jeito, você vai pegar neblina por aí.
42:33
É, parece. E me ligue assim que você chegar. Não vou sair de perto do telefone.
42:38
Nilson se despediu dos pais e já ia saindo para a garagem a fim de tirar o carro, quando Dona Mariquinha entra na sala amparada por Chica.
42:48
Chica, por que você deixou que a vovó se levantasse?
42:51
Ela não dormiu a noite inteira, Dona Adélia. Sentava na cama, falava, cantarolava e assim que escutou conversa aqui na sala, quis se levantar.
43:02
Hoje o dia promete.
43:04
Me desculpe, mas não teve jeito de segurar ela.
43:08
Oh, vovó, é muito cedo ainda. Volte para o seu quarto com a Chica.
43:13
Deixe, mãe. Com certeza ela quer se despedir de mim. Vovó, olha, eu preciso fazer uma viagem, viu? Fique boazinha, obedeça a todos que quando eu voltar vou trazer um presentinho para a senhora, tá bom?
43:26
Passe pelo restaurante e diga ao Luiz que volte já já pra casa.
43:32
Ele tá demorando muito. Tá bom, tá bom, eu vou falar. Pode ir já, vovó.
43:38
Começou a ladainha de sempre.
43:40
Norival, por favor. Agora volte com a Chica pro seu quarto que ainda é muito cedo, vovó.
43:45
Diga pro Luiz que se ele não voltar logo, eu vou buscar ele Aposto como aquela descarada tá dando em cima dele de novo E quem é que ela tá falando?
43:57
Talazinha Batista, a mulher que fugiu com o vovô É, ultimamente ela tem falado muito nesse nome E que fim levou essa mulher?
44:06
Não sei, é bem possível que esteja morta, já faz tanto tempo
44:11
Leve a velha de volta para o quarto, Chica. Ou ela pega um resfriado e vai dar mais trabalho do que já dá. Amanhã está muito fria.
44:17
Sim, senhor. Vamos, dona Marequinha. Fale para o Luiz que eu já estou cansada de esperar.
44:24
Vou falar para a Lúcia não fazer mais licor descida para ele. Está bem, eu falo sim, vovó. Leve ela, Chica. Vamos, dona Marequinha. Elazinha abatensequei, ó de gorda. Elazinha abatensequei.
44:40
E você ainda tem esperança que ela se cure, Adélia?
44:43
Agora não é hora para falar nisso, Lorival. Pai, tenha um pouco de paciência.
44:47
Eu não faço outra coisa nesta casa senão ter paciência. Paciência. Eu só não sei até quando. Bem, eu vou indo.
44:55
Nós o acompanhamos até a garagem.
45:07
Já faz três horas que estou na estrada. Bem que a Debbie podia estar comigo. Uma companhia para conversar tornaria a viagem menos cansativa.
45:17
Mamãe tem toda a razão.
45:20
Eu tenho que superar esse medo de avião.
45:23
Se tudo der certo e eu assinar esse contrato de trabalho, vou ter que viajar muito. E de carro eu não vou aguentar.
45:35
Mais uma hora se passou.
45:37
Vou dar uma parada na próxima cidade para comer alguma coisa e descansar um pouco. Minhas costas estão doendo.
45:49
A cidade estava distante alguns quilômetros e o céu de repente fez-se negro. O ecoar do trovão assustou o rapaz.
46:01
Esta agora...
46:04
Vem aí uma bela tempestade.
46:06
O dia foi como que tomado por uma imensa nuvem negra de causar arrepios.
46:14
Preciso parar. Odeio dirigir com chuva e relâmpagos.
46:18
Ele foi encostando o carro no acostamento.
46:23
Essa chuva podia esperar o chegar na próxima cidade para cair.
46:34
Já havia passado meia hora e nada da tempestade cessar.
46:38
Eu não posso continuar parado aqui com essa tormenta. Esses trovões e relâmpagos estão me dando nos nervos. Queria cair um raio de uma hora para outra?
46:50
Tenho que achar um abrigo. Mas onde?
46:53
De repente, algo chamou a sua atenção. O que é aquilo?
46:59
Ao longe, avistou uma luz em plano alto.
47:06
Meu Deus, é um risco ficar no carro com esse tempo. A coisa está se complicando.
47:12
Aquela luz deve ser de alguma casa que fica no alto de algum penhasco.
47:17
Preciso chegar até lá.
47:19
Será que conseguirei? Só falta o carro não pegar agora.
47:23
Ele ligou o motor e este pegou felizmente.
47:27
Devagar, com esforço e cuidado, dirigiu até a casa que refletia a luz. Parou em frente, desceu e correu até a porta da casa, tenso.
47:40
Tomara que tenha gente Me ajude, meu Deus Não demorou e a porta se abriu Pois não?
47:46
Um senhor de meia idade surgiu à sua frente Ajude-me, por favor, eu preciso de abrigo Prestimoso, o homem disse calmo Mais do que depressa, Nilson entrou e o homem fechou a porta.
48:01
Estou indo para Belo Horizonte e essa tempestade me pegou de surpresa. Desculpe incomodar.
48:06
Ora, não se preocupe com isso.
48:09
Sente-se, por favor. Vou buscar uma toalha para o senhor se enxugar.
48:13
O homem desapareceu por uma porta. Nilson fez uma inspeção pela enorme sala. Viu um grande balcão ao fundo, uma estante com bebidas e várias mesas e cadeiras espalhadas pelo recinto.
48:28
Será um bar?
48:29
Não vi nenhuma placa lá na frente.
48:32
Também pudera com essa chuvarada. Mal pude ver a luz acesa em cima da porta. É, deve ser um bar, sim. Ainda bem. Estou precisando de uma bebida forte para esquentar os ossos.
48:43
O homem voltou em seguida com uma toalha.
48:46
Se quiser tomar um banho, sinta-se à vontade. Obrigado, mas não é necessário.
48:51
Isto aqui é um bar? Não, senhor. É uma pensão Uma pensão?
48:56
Ah, que ótimo O senhor é o proprietário? A proprietária é minha avó Mas como está muito velha Eu é quem comando tudo Nilson enxugava-se e fazia perguntas Muitos hóspedes? A pensão está praticamente lotada Mas se quiser um quarto, fique tranquilo Posso arranjar-lhe Eu acho que vou querer sim É impossível prosseguir viagem com esse tempo O senhor disse bem As tempestades aqui costumam causar muitos estragos.
49:28
Duvido que o senhor consiga atravessar a ponte de entrada da próxima cidade, que é São José. A esta altura, a água já cobriu, se não a tiver levado. É mesmo? E como farei para seguir viagem? Se a ponte tiver caído... O senhor terá que voltar cinco quilômetros e pegar outra estrada Mas que transtorno E isso correndo o risco do motor do seu carro quebrar Porque é estrada de terra e com muitas crateras É, eu vou ter que ficar por aqui mesmo Eu vou lhe servir uma bebida.
50:02
O senhor deve estar gelado. O que prefere? Conhaque. Já passou da hora do almoço, mas se estiver com fome, a cozinheira poderá preparar-lhe algo. Ou se preferir esperar o jantar, ele será servido a partir das cinco horas.
50:16
É, eu prefiro esperar o jantar.
50:18
Vamos até o balcão para eu lhe preparar o conhaque. E preencher a sua ficha. Claro, claro.
50:24
A chuva amanhou um pouco, mas só cessou mesmo ao anoitecer. Instalado num modesto quarto, mas muito limpo e aconchegante, Nelson estava preocupado com o atraso da viagem.
50:37
Se não fosse a tempestade, estaria bem longe a esta hora.
50:41
Tomara que as águas não tenham danificado o motor do meu carro, senão eu vou me atrasar ainda mais.
50:48
Acho que nem oficina mecânica existe por aqui.
50:51
É tudo tão deserto, tão isolado. Quando iria imaginar que existisse uma pensão num lugar como este? Menos mal. Como iria passar a noite naquele carro apertado?
51:09
O dia seguinte amanheceu limpo e claro, mas com pouco sol. Mal se levantou e Nilson correu verificar o seu carro. Teve uma grande decepção.
51:20
Era o que eu temia.
51:22
O motor se encharcou de água e não pega de jeito nenhum.
51:26
E agora o que é que eu faço?
51:35
Tem um posto em São José com um mecânico muito competente. Eu vou ligar para ele e vir dar uma olhada no seu carro.
51:42
Faça isso, Sr. João, por favor. Eu tenho que prosseguir viagem o mais breve possível.
51:47
João ligou para o posto, mas...
51:50
O mecânico não está.
51:52
Precisou fazer uma viagem e só volta amanhã de manhã.
51:54
Ah, era só o que me faltava.
51:57
Sinto muito, Sr. Nilson. É inacreditável que não exista outro mecânico por aí.
52:02
Infelizmente, isso é um fato. É o fim da picada. Ah, mas eu vou fazer aquele carro pegar nem que seja na porrada.
52:11
Minutos depois, ele retorna ao salão, desiludido e nervoso. Tentativa inútil.
52:17
Tinha que acontecer justamente comigo. Se eu não fosse um frouxo e tivesse ido de avião. Não fique tão nervoso, Sr. Nilson. Eu tenho uma reunião em Belo Horizonte amanhã às oito horas. Uma reunião de trabalho, entende? O meu primeiro trabalho importante desde que me formei em arquitetura há um ano. O senhor pode imaginar como é que eu estou me sentindo?
52:37
Perfeitamente. E lastimo que tenha acontecido esse imprevisto.
52:42
Se quiser usar o telefone para justificar o seu atraso, esteja à vontade. É o que me resta fazer, né? Alguns minutos depois.
52:50
E então? Resolveu o problema? Graças a Deus. A reunião será adiada para depois de amanhã no final da tarde. Só falta agora esse mecânico não voltar dessa maldita viagem.
53:03
Ele volta, sim.
53:05
Por que o senhor não dá uma volta por aí para se parecer e se acalmar um pouco?
53:09
E tem alguma coisa interessante para se ver neste fim de mundo?
53:13
Temos um bosque muito bonito, onde habitam diversas espécies de aves raras.
53:20
Ele é visitado por criadores do mundo inteiro. Garanto que o senhor vai gostar. Temos também um belíssimo lado aqui... Ah, não.
53:27
De água já estou até a raiz dos cabelos. Eu prefiro ficar aqui mesmo na pensão.
53:33
O senhor esteja à vontade.
53:35
Assim como quem não quer nada, Nilson pôs-se a examinar o local, que apesar de isolado, era enorme e circundado por árvores centenárias.
53:45
Um casarão antigo, mas bem conservado, que mais se assemelha a uma sede de fazenda.
53:52
Percorreu todas as dependências com curiosidade. Ao entrar na cozinha, surpreendeu-se. Além do fogão industrial, havia também um fogão de lenha desativado num canto.
54:03
— Que interessante!
54:05
Ele examinou minuciosamente o mesmo e, em seguida, procurou João.
54:10
— Como arquiteto que sou, posso lhe garantir que o senhor tem aí uma verdadeira relíquia.
54:16
—
54:17
E temos também panelas de ferro, aquelas que se usavam antigamente. Eu sempre ouvi dizer que não existe comida mais saborosa do que a preparada em fogão de lenha. É verdade. Principalmente a feijoada. É mesmo? Acabo de ter uma ideia. Sim. Eu gostaria que o senhor mandasse me preparar uma feijoada naquele fogão.
54:39
Infelizmente, não vai ser possível, Sr. Nilson Eu pago o quanto o senhor quiser Não é por causa do dinheiro Não me diga que não se encontra lenha por aqui Lenha é o que não falta Mas também não é por causa disso Por que, então? O fogão está desativado há anos E minha avó não permite que ninguém mexa nele E posso saber por quê? Eu também não sei O fato é que ela não gosta nem que as pessoas se aproximem dele.
55:10
Que estranho. Também acho. Ela nunca disse o motivo?
55:14
Não. As pessoas velhas têm certas manias esquisitas, não é mesmo? E se eu pedisse para ela? O senhor pode tentar.
55:23
Mas não vai conseguir nada. Eu arrisco, ora. Se deseja mesmo... Onde ela está? Eu ainda não tive o prazer de conhecê-la. Raramente ela sai do seu quarto...
55:44
A avó de João devia ter mais ou menos a mesma idade da bisavó de Nilson. Estava sentada numa velha poltrona, as mãos trêmulas sem fã tentativa de bordar um pedaço de tecido.
55:57
Vó, este moço quer ter um dedinho de prosa com a senhora.
56:02
Como vai, senhora?
56:05
Está ficando bonito o bordado. Não zombe de uma pobre velha. As mãos já não obedecem mais a cabeça. É o tributo à idade.
56:17
Esteja à vontade, moço. Sente-se, sente-se.
56:21
Obrigado, mas eu não vou tomar muito o seu tempo. O que quer? Há sua permissão para o seu João mandar fazer uma feijoada para mim no fogão de lenha?
56:32
Ao ouvir isso, a velha largou o bordado, ergueu a cabeça e fitou com os olhos esbugalhados.
56:39
Nunca!
56:41
Ninguém se atreva a mexer naquele fogão Eu disse a ele que a senhora não permitiria, vovó Mas ele... Cale a boca, João Senhora, me desculpe, mas eu não entendo a sua reação Foi o grande amor da minha vida quem o construiu E depois que ele morreu, ninguém mais pôs as mãos naquele fogão Olha ali A velha indicou uma fotografia desbotada na parede
57:10
ele foi o grande amor da minha vida Wilson olhou para a foto e estremeceu da cabeça aos pés e disse para si mesmo aterrorizado meu Deus não é possível eu devo estar tendo um pesadelo A foto na parede era do seu bisavô... Uma duplicata da mesma foto que sua bisavó mantinha pendurada na parede do seu quarto.
57:49
Ainda trêmulo, ele perguntou... Posso... Posso saber o nome do... Do seu grande amor? Luiz... Luiz Demetrio dos Santos... Deus... E... E a senhora... Como se chama?
58:08
Lazinha Batista...
58:12
Mas, para que tanta curiosidade?
58:15
O senhor... O senhor não é da polícia, é? E... E se eu fosse? Ninguém vai mexer no meu fogão. Calma, avó, calma. Não tem nada lá que interessa ninguém. E saio do meu quarto, os dois! Mas, dona Lazinha, eu... Fora do meu quarto!
58:32
Fora do meu quarto! Fora do meu quarto!
58:44
Nilson passou o resto do dia tenso, nervoso com o que acontecera. À noite, nem dormiu pensando na sua descoberta. Mil pressentimentos o atormentavam. No dia seguinte, pela manhã, João ligou para o mecânico e este já havia regressado de viagem.
59:00
Em uma hora o mecânico estará aqui, Sr. Nilson.
59:03
Menos mal. Consertado o carro, o rapaz se despediu e seguiu viagem.
59:15
Três dias depois, ele ligou para casa.
59:18
Tudo resolvido, pai. As condições de trabalho eram condizentes com a minha vontade e já assinei o contrato.
59:24
Que bom. Então você já está voltando?
59:27
Não. Eu vou demorar mais uns dias.
59:30
E por quê?
59:31
Eu preciso resolver um problema. Quando voltar, eu explico.
59:35
Deixa eu falar um pouquinho com a mamãe, por favor?
59:38
Ele quer falar com você, Adélia.
59:40
Ah, sim. Tudo bem, querido? Tudo bem, mãe.
59:44
Me responda só uma pergunta. Como era mesmo o nome daquela mulher que fugiu com o meu bisavô?
59:50
Lazinha Batista.
59:58
No dia seguinte, Nelson procurou uma delegacia de polícia e contou ao delegado sobre sua desconfiança com a velha Lazinha, ressaltando o sumiço do bisavô havia tantos anos sem jamais enviar notícias, ainda que deixando uma filha com a legítima esposa. E então, doutor, o que o senhor me diz? Vamos tratar disso o mais urgente possível.
60:26
Já anoitecia quando a polícia chegou à pensão. Imediatamente, o delegado ordenou que se demolisse o fogão e no local foi aberto um buraco. Lá estava o que Nilson imaginara, um esqueleto humano. Junto ao esqueleto, foi encontrada a fivela de um cinto com as iniciais do bisavô de Nilson, LDS.
60:54
Um dente de ouro na arcada dentária superior concluiu o reconhecimento da vítima. Não foi necessária muita insistência do delegado para que a velha Lazinha confessasse o crime. Não adianta a senhora negar.
61:08
O esqueleto foi perfeitamente identificado. E quero crer que foi um crime passional. Estou certo?
61:17
Vó, eu não consigo acreditar que a senhora teve a coragem. Não é verdade, não é mesmo?
61:27
Chore à vontade, dona Lazimé. Eu tenho paciência para esperar.
61:31
Não, ela não pode ter cometido esse crime.
61:36
Diga que não foi a senhora, vó.
61:42
Ele queria voltar para a esposa. Queria me abandonar.
61:46
Depois de tudo que eu fiz para tê-lo junto de mim. Então, magoada e ferida, a senhora fez o serviço com as próprias mãos, não foi?
61:55
Não, senhor delegado. Eu não tive coragem. Contratei um pistoleiro.
62:01
Eu queria que tudo fosse feito sem dor.
62:06
E ele não sofreu.
62:08
Foi um tiro certeiro na cabeça. A queima-roupa.
62:12
Meu Deus, que crueldade.
62:14
Repito, ele não sofreu, não sentiu nada.
62:19
O senhor vai prendê-la, doutor delegado? Ela tem quase 80 anos.
62:25
Ela vai ter que explicar muitas coisas ainda, senhor.
62:29
Depois, a justiça é quem vai decidir o seu destino.
62:44
Dois dias depois, Nilson disparou de volta para casa. Assim que adentrou a sala,
62:50
Filho! Que bom ter você aqui de novo!
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Estávamos morrendo de saudade. Eu também. Mas não podia regressar antes de fazer o que tinha que ser feito.
63:01
E o que é que tinha que ser feito?
63:03
Mãe, a senhora não vai acreditar no que eu tenho para te contar. Eu também tenho uma grande novidade para você. Primeiro, deixa eu contar a minha, tá bom, mãe? Deixa eu contar a minha primeiro.
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Adélia ouviu estarrecida a história do final infeliz da vida do seu avô. Em seguida, olhou fixamente para o filho e disse trêmula.
63:24
Que estranha coincidência, Nilson.
63:27
Sua mãe tem toda razão. Mas de que coincidência estão falando? Nesse momento, a bisavó de Nilson entrou na sala sozinha, caminhando lentamente, mas com passos firmes. O rapaz estranhou. Vovó?
63:42
E dirigindo-se ao bisneto, disse calma e sorridente.
63:47
Adélia me disse que você tinha ido viajar. Fiquei preocupada, meu querido.
63:54
Vovó... E mirando como que encantada... Como você é parecido com o meu Luiz...
64:04
Besteira... Como é que eu posso dizer meu... Se ele fugiu de mim há tantos anos, não é mesmo?
64:14
Em seguida... A velha se retirou... Tão mansamente quanto surgira...
64:19
Mãe...
64:21
Ela nem parece a mesma de antes... Está bem melhor.
64:26
Não apenas melhor, meu filho.
64:29
Ela está curada. Se lembra de tudo, tudo. E... E quando aconteceu isso?
64:36
Há dois dias. Não é mesmo, Lorival?
64:38
Graças a Deus.
64:58
Esta história pretende nos passar a ideia de que haveria uma relação entre a descoberta da razão da morte do bisavô e sua responsável e o reequilíbrio da sua esposa Mariquinha.
65:10
Estaria implícito nesse raciocínio uma influência espiritual que levaria a personagem de Mariquinha a uma tensão contínua pelo crime de Lazinha que Lazinha havia cometido, programando a morte do companheiro bisavô de Nilson. Do ponto de vista doutrinário do espiritismo, a viagem de Nilsson, uma tempestade que o obrigou a procurar ajuda justamente no local onde o crime tinha sido praticado, seria uma influência espiritual para que a verdade surgisse.
65:40
Embora este fato seja aceitável, só podemos concordar que ele levasse Nilsson a descobrir o mistério do sumiço do bisavô, mas não teria condições de reequilibrar a bisavó. Uma perturbação tão intensa na mente de um encarnado não pode ser eliminada de um momento para outro.
65:59
Talvez, com o tempo relativamente longo, a melhora surgisse.
66:03
Os problemas do consciente e semiconsciente não se solucionam num passe de mágica. A ciência psicológica esclarece assuntos desse tipo com muita clareza.
66:15
Esta história é ficção, mas vale pela revelação de que nossas atitudes, boas ou más, sempre provocam consequências da mesma qualidade moral, ética e espiritual. Os casos mais extravagantes ocorrem sem que se conheça as suas causas.
66:33
Meditemos para estarmos vigilantes conosco mesmos, para não provocarmos situações dolorosas no futuro físico ou espiritual.
66:43
A Rádio Boa Nova acaba de apresentar O Bisavô, minissérie de Sidney Carbone inspirada num argumento de Uderico Amêndola. Em seu desempenho atuaram os seguintes atores. Florival, Ivaldo de Carvalho. Adélia, Ivone Martins. Nilson, Sidney Carbone. Mariquinha, Ivone Soares. João, Adacel Alberto. Débora, Jeane de Paula. Delegado, Gastão de Lima Neto.
67:14
Lazinha, Lúcia Maria Correia. Chica, Elaine Santana. Narração e apresentação, Joel Robson. Gravações, edição e sonoplastia, Antônio Tadeu Lopes. Análise e comentários, Gastão de Lima Neto. Supervisão e direção geral, Sidney Carbone. Realização, núcleo de dramaturgia da Rádio Boa Nova de Sorocaba.
67:49
Música